Combate ao racismo tornou-se definitivamente uma questão social, diz Luiza Bairros

“Não são apenas as ações do governo que podem contribuir para combater o racismo. O que impulsiona as coisas de fato é a forma como a sociedade cobra atitudes mais coerentes com a democracia”, disse, nesta quarta-feira (25), a ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, da Presidência da República, Luiza Bairros, no  Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, instituído em 25 de julho de 1992 como marco da luta contra a opressão.

No programa Bom dia Ministro, a ministra falou sobre o Estatuto da Igualdade Racial, que completa dois anos, e sobre as ações do governo federal a favor da população negra no país. Na sua opinião, a conquista mais consistente até agora – mais até do que o Estatuto da Igualdade Racial – é o fato de a questão racial ter se transformado definitivamente em uma questão social e ter sido incorporada pelas instituições como um objetivo sério a ser perseguido.

Bairros lembrou que pais e mães devem cobrar nas escolas a adoção dos conteúdos afirmativos e alertou sobre as dificuldades que ainda persistem para a punição daqueles que cometem o crime de racismo. “A tendência de alguns juízes ainda é tratar o assunto como se fosse apenas um xingamento, uma perda de controle momentânea, sem levar em conta os efeitos muito danosos que ser vítima do racismo produz em qualquer pessoa”, disse.

Leia matéria completa clicando aqui…

 

Fonte: planalto.gov.br

Com os negros, o Brasil poderá mais

Aside

Nos últimos 15 anos, a ação do governo, do Congresso e da mídia ajudou o país a ter mais negros em postos de prestígio no seu mercado de trabalho.

Em 1995, uma pesquisa realizada pelo Datafolha apontou que 89% de brasileiros aceitavam a existência do racismo no país. Somente 10% deles confessavam que já teriam discriminado negros.

Em 2001, quando a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), pioneiramente, criou cotas para negros no ensino superior, conforme pesquisa do Ipea, os universitários brasileiros eram 97% de brancos. Os professores, pesquisadores e cientistas negros somavam 1%.

Os negros compunham 70% dos que viviam abaixo da linha da pobreza e 63% do quadro dos pobres. Em 2001, era quase impossível encontrar um general negro, um almirante negro, um embaixador negro, um executivo negro comandando qualquer grande empresa do país.

Como se vê e sempre se soube, as relações entre negros e brancos no Brasil se estruturaram sob uma visão de racismo sem racistas e em uma concepção ambígua e irracional de que racismo e discriminação racial não existem, por que a ciência decretou que raças não existem -se distorção houver, é a discriminação social que mantem negros e brancos separados e desiguais.

Na sociedade escravista, a ciência não impediu que os negros fossem escravizados. Na sociedade da razão e do mercado, não permitiu que pudessem usufruir o ideal republicano de iguais, tidos por ela como integrantes de raça inferior.

No plano político real, nossa mistura de raças e nossa identidade mestiça de brancos, negros e índios esteve longe de significar integração e participação em pé de igualdade.

Apesar de patrimônio coletivo, nossa identidade tripartida tem servido como ideologia articulada que, negando o racismo e diluindo o racial no social, mantém privilégios, oportunidades, vantagens e estética social exclusiva, da qual os negros não participam.

Uma república de poucos e uma democracia de desiguais que segrega e interdita os acessos aos 51% dos brasileiros autodeclarados negros.

Apesar dos pesares e a despeito dessas visões e crenças equivocadas ultrapassadas, nos últimos 15 anos a conscientização e o comprometimento de destacados setores da sociedade, do governo, do Congresso e da mídia nacional na defesa e valorização da diversidade e igualdade étnico-racial e no combate à discriminação contra os negros, contribuíram para algumas mudanças.

A criação das políticas afirmativas de cotas para negros nas universidades públicas e, nas universidades privadas, do ProUni e outras importantes realizações resultaram no aumento expressivo dos negros no mercado de trabalho, em postos de prestígio da alta administração e mesmo na comunicação e estética social.

Se não é tudo que podemos (e não é), essas pioneiras e limitadas realizações e seus incipientes resultados nos permitiram sair do lugar comum e agir criativamente pra construir consensos e mudanças para colocar o país como uma república moderna, acessível e disponível a todos.

Por isso, era preciso seguir adiante, era preciso ir além.

A corajosa decisão do Supremo Tribunal Federal, que aprovou a constitucionalidade de cotas para negros no ensino superior, nos libertou das amarras de um falso dilema e devolveu o país aos trilhos da racionalidade.

Não abandonou os negros e honrou todos os brasileiros. Fortaleceu a justiça e definiu os fundamentos que permitirão a celebração verdadeira da nossa identidade e diversidade racial. Impediu que nos tornássemos gigante de pés de barro.

Com os negros, o Brasil fica mais coeso, mais fortalecido, mais produtivo, mais criativo, mais competitivo, mais colorido e melhor. Com os negros, o Brasil poderá mais.

JOSÉ VICENTE, 52, advogado, é reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares

Fonte: Folha de São Paulo – Opinião